O mercado de tecnologia e suas peculiaridades

O mercado de tecnologia é algo surreal. Por sempre ter tecnologias novas que nascem todos os dias, há um número enorme de pessoas que correm para se adaptar a elas. Ao mesmo tempo, há um número maior ainda que não vê necessidade de mudar o modus operandi que utilizam há tempos.

Não tenho tanta autoridade sobre outros mercados, mas a área de tecnologia é uma das únicas que eu conheço em que você apresenta uma solução que tornará a vida da pessoa mais fácil e ela insiste em não querer mudar (e, assim, lucrar menos).

Talvez isso ocorra devido a um medo com o ritmo e grandiosidade das mudanças. Só parem pra pensar que, há 10 anos, ninguém sabia o que era um Smartphone. Agora pense na sua vida sem seu celular.

Ou, quem sabe, pode ser que a pessoa simplesmente não entenda dessas novas tecnologias e não queira se arriscar em uma frente que não domina.

De qualquer forma, nesses anos de experiência consegui acumular algumas histórias engraçadas e percebi alguns padrões que, para minha (in)felicidade, tendem a se repetir.


O barato sempre sai caro


Na nossa vida, existem situações em que receber um produto “inferior” não nos causa muitos problemas. Ir em um outlet e comprar uma camisa com um erro de costura quase imperceptível e pagar 50% do valor original? Ótimo!

Agora, levar essa mentalidade para a atividade principal do seu negócio e achar que não haverá repercussões é um pouco mais complicado. Claro, se a sua necessidade é um site simples pra colocar seu endereço e meios de contato, isso é uma coisa. Mas achar que criar uma plataforma complexa é algo que sairá barato e escolher o seu fornecedor pelo preço, aí a coisa muda de figura.

Já perdi a conta de quantas vezes falei com donos de empresa ou fornecedores frustrados com a qualidade do seu produto.

As histórias sempre são as mesmas: escolheram um desenvolvedor freelance ou uma empresa que prometia um produto de alta qualidade, com entrega rápida e um preço muito barato. No fim, quando eles recebiam o produto final (isso quando recebiam), geralmente não era o combinado ou era algo muito inferior do que o prometido, cheio de problemas.

Com isso eles precisam ir atrás de alguém para arrumar tudo que foi feito, sendo que já estouraram o orçamento e o prazo que tinham. (Vale notar que não estou dizendo que isso é culpa das pessoas, às vezes é a única opção que elas têm ou, por não conhecer o mercado, acabam caindo na lábia de gente que acha que consegue fazer um projeto sendo que não consegue).

Uma regra geral sobre tecnologia que sempre falo com os clientes da Kingly Studio é: no processo de criação de um projeto, existem 3 variáveis. Você tem Preço, Qualidade e Tempo de desenvolvimento. Você só pode escolher duas. Aí vai de alinhar as expectativas do cliente com o que pode realmente ser produzido.

São três variáveis. Bom, Barato e Rápido. Escolha duas.

 

A síndrome do sobrinho

A síndrome do sobrinho é um fenômeno que todos que trabalham com tecnologia, design, fotografia e outras áreas artísticas e de criação já vivenciaram e é muito comum no mercado de serviços em geral. O que acontece é mais ou menos o seguinte:

A pessoa tem uma ideia. Ela te passa o que ela precisa. Você fica animado, é uma ideia muito legal. Você manda um orçamento. O cliente não gosta do orçamento. Até aí, tudo bem. É normal. Mas ele vai um passo além e te responde dizendo que tem um sobrinho/filho/afilhado e que essa pessoa faria por 10% do seu valor. Então ele pergunta se você cobre.

Não sei se isso é tão comum pela área de tecnologia ser muito imaterial, afinal, você geralmente não tem um produto ou resultado que as pessoas têm na mão (e a maioria das coisas acontecem sem o cliente ver). Não sei se é pela inexperiência das pessoas, que acham que é “só fazer um appzinho” ou um “sitezinho simples em que você clica e ele faz isso” (palavras que ouvi, não minhas).

Dificilmente você ouviria uma pessoa falar para um engenheiro “olha, dá pra fazer essa obra por 30% do valor, meu sobrinho consegue” e, se isso acontece, devem ser esses os casos de pontes e prédios desabando que vemos no jornal.

Geralmente os casos de síndrome do sobrinho acabam resultando em situações que o barato saiu caro. 

 

O próprio mercado cria as suas inconsistências

A área de tecnologia é linda. Sou apaixonado pelas inovações que aparecem e pelo fato de que qualquer um, independente de idade, origem ou formação, pode criar a próxima ferramenta ou produto que vai revolucionar a sociedade.

Mas isso também causa muitos problemas. Como a barreira de entrada no mercado é muito pequena, qualquer pessoa com um notebook e uns tutoriais já pode se chamar de desenvolvedor. Com um excesso de mão de obra (repare que não coloquei qualificada em lugar algum), os preços de serviços tendem a baixar. Como que eu posso justificar cobrar X em um projeto se uma pessoa, com uma empresa aparentemente igual à minha, cobra um terço desse valor?

Se o cliente é uma pessoa que já passou por perrengues ou é familiarizado com a área, a conversa é um pouco mais fácil, mas a maior dificuldade é mostrar o valor do seu trabalho para o cliente. Em um outro texto escreverei sobre as melhores formas de fazer isso, mas a resposta é, basicamente, mostrar como o seu serviço, com suas especialidades, vai poupar dinheiro e dor de cabeça para o cliente no futuro.

 

O mercado inova mas o básico já resolve boa parte dos problemas

Isso é algo que eu sempre me impressiono. Todo dia sai uma tecnologia nova, um framework novo ou uma biblioteca diferente. De tempos em tempos ouvimos que uma linguagem virou a nova queridinha do mercado. Foi assim com o Java, depois passou para o Ruby on Rails e por aí vai.

Mas o que me diverte muito é que, na maioria dos casos que encontro, são as práticas mais simples e consolidadas que resolvem o problema. É aquele negócio: nem todo projeto precisa reinventar a roda. Inovar é legal mas saiba sua audiência.

Nos próximos dois textos, falarei um pouco mais sobre o cliente. Um será sobre o cliente do ponto de vista de um empreendedor no mercado de tecnologia. O outro conterá uma série de dicas PARA O cliente e meios dele não se enrolar e não ser enrolado pelo desenvolvedor.

Leandro Navatta
Leandro Navatta

Formado em Sistemas de Informação pela USP, mas desenvolvedor desde sempre. Fazendo coisas legais como/com a Kingly Studio desde 2015.